Neste seu novo projeto, Margarida Jardim traz-nos onze trabalhos em alcatrão sobre papel. Escreve António Guerreiro, em Escavar no Escuro:
“Até um observador menos atento percebe que não se trata de pintura. Não há neles marcas que deixem vislumbrar o gesto e o ritmo das pinceladas. Enquanto a pintura adiciona tinta a uma superfície, aqui não se adiciona nada. Pelo contrário: subtrai-se, como na escultura (pelo menos, na escultura clássica, que é subtractiva). Poderíamos talvez dizer que este trabalho artístico consiste, no essencial, em des-pintar, em retirar tinta.
O que dão a ver estes quadros que, além de não representarem nada e de não resultarem da aplicação de um conjunto de formas sobre um suporte (pelo contrário, uma boa parte do trabalho da artista consiste em de-formar o suporte), se caracterizam, em geral, por uma escala de tonalidades que vai do luminoso ao sombrio? O que se vê nas regiões da superfície dos quadros onde reina a sombra? Talvez possamos responder a estas perguntas, dizendo: deles emana uma intensidade que advém, em grande parte, de um certo efeito de privação que transmitem. Eles têm a capacidade de confrontar o espectador com uma experiência da negatividade, pelo lado do informe, do ilimitado, do sombrio.
Destacando estes aspectos (que têm uma contrapartida nas zonas radiosas, como o sol se opõe à sombra), aproximamo-nos de uma certa noção de sublime – um sublime moderno que está longe de poder ser definido como um grau superlativo do belo. O sublime que importa aqui evocar é aquela categoria que se tornou um objecto insistente no discurso da crítica e da estética na segunda metade do século XX, por efeito de importantes leituras da Crítica da Faculdade de Julgar, de Kant, e do manifesto do artista Barnett Newman, publicado em 1948, intitulado The Sublime Is Now. O sublime foi então visto como o destino moderno da arte. Não tendo nada que ver com a categoria do Belo e rejeitando toda a ideia enfática a que tradicionalmente está associado, temos de perceber que o sublime entra aqui por via dessa negatividade polarizada, isto é, numa tensão com o seu oposto.”
