“Cabeça Vermelha”, pastel de óleo sobre papel, 100cm x 70cm, “A OUTRA COISA”, Luísa Costa Gomes

“A pintura para mim é uma espécie de número de corda bamba; fica entre a representação e a outra coisa, o que quer que ela seja; é difícil manter o equilíbrio”.

Ian Fairweather

entrevista a Hazel de Berg,1965

Entre uma coisa e a outra coisa, entre a náusea do excesso e o horror ao vazio, pintar é brincar com a figura e o seu desfigurar, com o gesto que forma e deforma, combatendo na medida do útil e necessário, a harmonia pré-estabelecida da figura e do fundo, a sua hierarquia fisiológica, do Isto no Aquilo. É ver como esse Coelho a si mesmo contrário, as orelhas apontando em reflexão retrospectiva e olhando, perplexo, talvez temeroso, o Adunde, o Para Onde da representação. Penso em Asger Yorn a pintar o interior do Arquivo da Revolução na Havana, ou no seu jardim da Ligúria, numa vertigem de inscrever tudo em tudo, de fazer tudo de tudo e com tudo. Entediado pela conferência sobre a conversão cultural para que tinha sido convidado, Yorn meteu-se a pintar murais, sem esquecer as escadas, à volta de janelas, debaixo do corrimão, até a coluna da sala. Penso nessa compulsão para pintar em tudo e habitar a pintura, libertando-se da galeria, da grilheta da moldura e da maldição do passepartú. Mas a casa contém pinturas cujo destino é transbordarem pelo jardim. Esse não é o jardim de dentro para fora de Bonnard, com as suas traves e esquadrias que amparem o olho, esse é o viver na selva. Penso em Ian Fairweather, o anacoreta do bush australiano, pintando em papel de jornal quando não havia mais onde aplicar a mão. A obra por vezes não sobrevivia à viagem até Londres, chegando, consumada a sua fragilidade, em forma de papier mâché. A influência de Fairweather veio muito après la lettre: conheci a sua pintura depois de ter feito essas cabeças-paisagens estilizadas, cujos sulcos são estradas num mapa e vincos de expressão. A porosidade das cabeças faz delas cabeças no ar. Mas enquanto não detecta a figura, o olho inquieta-se. Busca, fareja e, no jardim, compõe caramanchões e das manchas faz magnólias, bancos à espera de mulheres que neles se reclinem, encontra banheiras sem baigneuses, camas sem dormeuses, clareiras sem danseuses. Provavelmente estarão, mas obnubiladas pela luz, escondidas bem à vista, nessa memória abismada em Bonnard. E penso em Bonnard como espectadora das suas luzes, numa homenagem o seu tanto gauche e carnavalesca. Será possível agir sobre o papel sem reconhecer a história dessa mesma acção? Será possível ver sem construir o contexto da visão?    

Luísa Costa Gomes